Mãe!: Filmes de arte e tramas complexas

screen-shot-2017-08-03-at-5-03-12-pm“Se você for ateu, leia a Bíblia antes de assistir Mãe! ou você vai entender menos ainda o filme”

Logo após terminar de assistir Mãe (Mother) escrevi o tweet acima, já que é quase um consenso que o longa do diretor Darren Aronofsky conta, à sua maneira, a história da Bíblia. Para minha surpresa muitos dos meus seguidores responderam que não tiveram essa mesma interpretação e revelaram diferentes visões sobre a história, alguns citaram o feminismo, outros problemas da nossa sociedade e muitos disseram que não entenderam absolutamente nada do filme, uma resposta igual a que a maioria do público teve.

Concordo com a conclusão comum de que a ideia do diretor Darren Aronofsky era contar a história da Bíblia de forma bastante alegórica e pessoal, a utilizando também para colocar outros temas bem atuais, como a opressão que as mulheres sofrem pelos seus maridos, a questão do bloqueio artístico e o valor de um artista, o ciúme, o sagrado, entre tantos outros temas. Um filme que deixa ao espectador a liberdade de entendê-lo como quiser ou até não entendê-lo, isso é obviamente algo perigoso para um produto que faz parte de uma indústria onde o resultado da bilheteria é vital para o seu sucesso, o próprio diretor afirmou que seu filme era difícil de ser vendido e que não pertencia a nenhum gênero específico. Mãe! é um filme dificílimo de assistir, uma narrativa com inúmeras metáforas e que foge totalmente do padrão de história que estamos acostumados, além de ter cenas fortíssimas, uma delas envolvendo um bebê, o que o distância ainda mais do público.

O longa anterior de Aronofsky, Noah, já deu os primeiros passos para o que viria a ser Mãe!, com a própria interpretação do diretor sobre as histórias narradas na Bíblia, especialmente sua visão sobre Deus, muito mais parecido com o do Velho Testamento do que o do Novo Testamento. É possível ver em Mãe um pouco de toda a obra do diretor até aqui, sua predileção por não querer explicar e sim confundir como fez em seu primeiro longa-metragem Pi, sua maneira de trabalhar os nossos medos internos como aconteceu em Cisne Negro, até sua visão sobre o sagrado e a natureza como em A Fonte da Vida. Outra marca de Aronosfky que se encontra em Mãe é a sua capacidade de conseguir tirar o máximo de seus atores, Jennifer Lawrence praticamente leva o filme nas costas com sua densa e muitas vezes exaustiva atuação que dividiu opiniões, aqui o seu estilo de atuação bastante emotiva se encaixa muito bem.

Não serei hipócrita, sinceramente não gostei de Mãe e tive muita dificuldade em assisti-lo até o fim, pior filme da carreira de um diretor pelo qual tenho um forte apreço. Como escrevi acima Aronosfky juntou um pouco de cada filme seu nesta obra, uma junção que rendeu um resultado alegórico demais, muitas vezes beirando a prepotência artística, uma tentativa exagerada de Darren Aronosfky de tentar fazer algo extremamente autoral. Direito o qual obviamente ele tem de fazer o que quiser e que sim agradou a muitos que consideram o longa uma obra perfeita e o descreveram como “cinema de arte”. Sou totalmente contra o uso deste termo cada vez mais ultrapassado, já que arte é um conceito muito amplo e que muda para cada pessoa, um conceito que acabou virando uma espécie de muleta para diretores e também para os críticos.

Inicialmente muitos consideravam Mãe! como um dos favoritos as principais premiações, especialmente ao Oscar, ideia que logo se perdeu diante da mista recepção ao filme, primeiro entre os críticos, onde alguns o consideraram uma obra-prima e outros o arrasaram, depois o próprio público que o recebeu de forma desconfiada e finalmente o filme acabou ficando de fora da lista de indicados das principais premiações, inclusive no próprio Oscar e o máximo que conseguiu foi algumas indicações ao Framboesa de Ouro, premiação que celebra os piores do ano e isso foi bem merecido. Mãe! faz parte daquele grupo de filmes que sempre dividirá opiniões, ame ou o odeie, o melhor é colocá-lo naquela famosa lista de assuntos que não devem ser  colocados em uma discussão.

Blade Runner 2049: Sobre filme cuts e a velocidade no cinema

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Hoje Blade Runner – O Caçador de Androides é considerado um clássico cult e inspiração para diversos outros filmes, mas poucas pessoas lembram que na época de seu lançamento em 1982 o filme dirigido por Ridley Scott foi um enorme fracasso de público e também de crítica, foi somente após o seu lançamento em Fita/VHS (a tecnologia anterior ao DVD para os mais novos) e com o passar dos anos que Blade Runner começou a ser reconhecido como uma obra importante para a história do cinema. Talvez essa informação já deveria ter sido um aviso sobre o perigo do filme ganhar uma continuação, ainda mais 35 anos depois do lançamento original, mas mesmo assim em 2017 foi lançada a sequência Blade Runner 2049, dirigida desta vez por Denis Vileneuve (A Chegada), um dos melhores diretores da atualidade. A sequência foi extremamente bem recebida pelos críticos que o elegeram como um dos melhores do ano, mas o longa que custou em torno de US$ 150 milhões arrecadou apenas US$ 258 milhões mundialmente, sendo que teve um péssimo resultado no mercado interno nos EUA.

Qual foi o motivo do fracasso do filme? Diagnosticar um motivo apenas é bem difícil, já que cada pessoa pode ter tido um motivo diferente para não se interessar pelo filme, mas existe um conjunto de razões que podem ter influenciado esse fracasso de bilheteria. Muitos acreditam que o problema principal é a sua longa duração, com 2 horas e 44 minutos, discordo, é só lembrar que muitos sucessos dos últimos anos tiveram durações ainda mais longas, mas talvez a resposta não está na duração, mas na maneira que esse tempo é utilizado. Blade Runner 2049 é um filme bastante contemplativo, algo que é marcante no estilo de Vileneuve, muitas cenas sem diálogos, como a já famosa cena no deserto, porém vivemos em uma época de filmes com muita ação nas histórias, a ação acaba sendo vital para dar ritmo e atrair o público, histórias mais lentas geralmente são contadas em produções de menor orçamento, o que aumenta a chance de lucro, é uma matemática simples.

Blade Runner 2049 com seu estilo bastante contemplativo acreditou que poderia fugir dessa fórmula por causa da fama do filme original, mas esqueceu que mesmo sendo considerado um clássico influente, Blade Runner é ainda um filme de nicho, voltado para os cinéfilos de carteirinha, fãs de ficção científica, e não um filme para atrair o grande público. Outro problema que muitos diagnosticaram, e o qual concordo, é que o trailer do filme não era atraente, a proposta de divulgar poucos detalhes da trama nos trailers e deixar um excessivo tom de mistério pode ter sim afastado o público, já que infelizmente o público está acostumado com os trailers atuais que praticamente entregam toda a trama. A trama de Blade Runner 2049 é até mais simples e de fácil entendimento do que a do filme original, penso que em muitos pontos até melhor, tudo é bem explicado, até para quem não assistiu ao filme anterior, mas quem assistiu somente ao trailer não teria como saber isso.

Não considero o longa original uma obra-prima, mas sim um filme influenciador, a história da sequência é até melhor do que a do original, por aprofunda-se mais nas questões levantadas no conto de Philip K. Dick que serviu de base para o original e para a continuação, dando destaque a vida dos Replicante, desde seu papel na sociedade, as relações entre eles e com os humanos, dando enfoque também a questão do preconceito. O roteiro de Hampton Fancher e Michael Green segue o estilo da narrativa original, mas com uma história que entrega mais detalhes e não deixa tantas perguntas sem respostas, onde o público consegue acompanhar a jornada de K (atuação comum de Ryan Gosling) em sua investigação, a qual não entrarei em detalhes para evitar spoilers. Outro acerto foi a criação da personagem Joi (Ana de Armas) que faz a jornada de K ser menos solitária, uma companheira que ajuda a entendermos mais sobre o que se passa dentro de K, diferente da opinião geral, considero desnecessária e estranha demais a cena de sexo envolvendo os dois. Apesar de ser um grande fã do trabalho de Denis Vileneuve e seu estilo de cinema contemplativo, em Blade Runner houve realmente um exagero nessa parte, cenas excessivamente longas que são sim lindas visualmente, mas não trazem nada para a história, na verdade a atrapalham e poderiam ter sido cortadas, o que realmente resolveria a questão da duração.

A Warner Bros, produtores, Villeneve e todos os envolvidos erraram ao acreditar demais na fama de cult do original, o orçamento de mais de 150 milhões de dólares criando assim uma bomba relógio pronta para detonar diante da expectativa de retorno de que se espera uma produção deste tamanho.

Corra!: Sobre quebrar regras e o negro no cinema

get-out-movie-daniel-kaluuya.jpgUm dos muitos clichês dos filmes de terror é que o personagem negro sempre vai morrer, pode ser no início ou até às vezes no fim da história, mas o personagem negro jamais será o sobrevivente, Corra! quebra essa e outras “regras” com uma história que se vende como do gênero terror quando é na prática uma inteligente comédia de humor negro, onde o verdadeiro vilão da trama é o racismo.

O diretor e roteirista Jordan Peele, conhecido por estrelar e dirigir filmes de comédia, apresenta uma história que desde a sua premissa revela o seu tom sarcástico. Na trama, Chris (Daniel Kaluyya), um jovem fotografo negro, parte em uma viagem para conhecer e passar um fim de semana com a família da sua namorada que é branca. Chris estranha o comportamento da família de sua namorada, mas acredita que seja por causa da questão racial, mas logo irá descobrir que a família esconde algo muito mais perturbador.

Uma história que a cada nova revelação vai ficando deliciosamente bizarra, tudo é propositalmente exagerado, com objetivo de quebrar todas as regras dos gêneros terror e suspense. Peele utiliza sua ótima veia cômica para escancarar todo o preconceito disfarçado que ainda existe contra os negros em sarcásticos diálogos, mostrando um  outro lado do racismo ao colocar o negro americano como objeto de curiosidade e que está na “moda” para os brancos americanos. O protagonista Daniel Kaluyya, que já tinha chamado atenção em Fifteen Million Merits, um dos melhores episódios de Black Mirror, tem uma técnica de atuação muito centrada nas suas reações faciais, especialmente em seu olhar, através dele reflete toda a sua perplexidade diante das reações que os amigos brancos dos familiares de sua namorada têm em relação a ele. Destacam-se também Bradley Whitford e Catherine Keener como os estranhos sogros brancos, em atuações que ficam entre o assustador e o humor-negro, a surpreendente e segura Allison Williams como a namorada branca e também Lil Rel Howery como o amigo do protagonista, um necessário alívio cômico que ajuda a dar mais ritmo a história em seus momentos mais pesados.

Nos EUA existe um tipo de filme, especialmente no gênero de comédias, voltado para o público negro, Peele rompe de certa maneira isso com Corra!, uma obra feita e sobre negros, mas não apenas para esse público. Como sempre tento evitar ao máximo spoilers, por isso não quero entregar e nem estragar a grande surpresa da trama, a qual é ao mesmo tempo assustadora e atípica, é através dela que é dada uma necessária lição de moral a todos os brancos e ao seu nada disfarçado racismo. Assim como aconteceu no ano passado com Moonlight, Corra! além de ser um bom filme, tem um valor social importantíssimo e que entra para a história ao quebrar muitos clichês dos filmes de terror, uma carta aberta aos brancos, especialmente aos chefões de Hollywood, de que a sociedade está felizmente mudando e que os negros não vão aceitar mais serem apenas coadjuvantes.

The Walking, Bright,Star Wars e: O Último Jedi: Sobre diretores, fãs e os críticos

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O ano de 2017 terminou com três inesperadas polêmicas no universo do cinema e das séries; a primeira foi sobre a discutível decisão de matar um querido personagem em The Walking Dead, o que iniciou uma enorme revolta dos fãs contra o produtor da mesma Greg Nicotero; depois tivemos a estreia de Star Wars: O Último Jedi que foi extremamente elogiado pelos críticos, mas de forma curiosa não está sendo bem recebido pelos fãs e para terminar o ano o filme da Netflix Bright recebeu duras críticas dos especialistas, o que revoltou o diretor David Ayer que decidiu responder grosseiramente essas críticas. Diante de tudo isso resolvi escrever este texto para comentar a cada vez mais difícil relação, especialmente por causa da internet e seus trolls, entre diretores/roteiristas/produtores, fãs e críticos.

Para não ficar em cima do muro vou rapidamente dar minha opinião sobre as polêmicas citadas. Desisti de The Walking Dead na temporada passada por acreditar que os roteiristas não souberam levar a história para o caminho certo, neste caso concordo com os fãs e discordo profundamente da ideia de matar esse personagem, um erro que pode custar caro para o que agora pode ser o curto futuro da série. Sobre O Último Jedi discordo totalmente dos fãs e concordo com os críticos, o argumento dos fãs de que muitas mudanças foram feitas na mitologia é quebrado ao lembrar que O Despertar da Força foi exatamente criticado por não trazer nada de novo, vou ainda mais longe e afirmo que o filme é o segundo melhor de toda a franquia; por fim os críticos foram excessivamente exigentes e chatos em relação a Bright, uma aventura de fantasia aceitável e que cumpre seu objetivo maior de entreter e apresentar um universo que pode ser utilizado em uma atraente franquia.

Um dos motivos que me levou a desistir do meu antigo site (o TV Cinema e Música) e a parar de escrever por dois anos foi exatamente a difícil relação com os fãs/trolls da internet que simplesmente não aceitam que discordem de suas opiniões e critiquem seus filmes ou séries favoritos, já aqueles que concordam e gostavam dos meus textos quase nunca comentavam. Este tempo que fiquei afastado também serviu para compreender que os críticos muitas vezes são realmente exigentes demais e muitas vezes, principalmente com os inúmeros sites pseudo especializados que existem, escrevem com o único objetivo de causar polêmica. Por causa destes dois pontos de vistas, decidi que aqui neste meu novo site não iria escrever críticas, não usaria o sistema de estrelas ou notas, mas sim usar uma certa série ou filme para falar sobre um assunto relacionado a este universo do cinema e da séries, com ênfase no roteiro, sempre com comentários embasados e argumentos que ajudem ao leitor entender o motivo dos meus elogios ou críticas a certa produção, mas jamais criticar simplesmente por não gostar de algo, tanto que evito falar sobre filmes ou séries que não combinam com meu gosto particular. Vocês vão perceber ou já perceberam que nunca dou uma opinião final sobre um filme ou uma série, sempre deixo aberto para vocês leitores a opinião final.

O crítico é geralmente, nem tanto como já foi antes, uma pessoa que estudou ou estuda o cinema e a televisão, por isso tem uma visão mais completa de uma obra e tem como obrigação maior fazer o público ver o lado mais profundo, especialmente pelo lado técnico, seja do roteiro, fotografia ou outros temas, para ajudar o grande público a entender o que está por de trás daquele produto, dar a ele uma outra visão que o fará pensar e talvez repensar sobre a sua opinião, mas jamais obrigá-lo a mudar a sua opinião. Concordo que para os críticos é muito difícil a relação com os fãs mais exaltados, mas felizmente para isso foi criado a moderação dos comentários. Sobre diretores, produtores e roteiristas e a relação deles com fãs e críticos precisa melhorar e muito, um embate que nunca vai acabar, os diretores e roteiristas conseguem ser muitas vezes mais chatos que os fãs, com seus fortes egos, acreditam que estão sempre certos e para eles os críticos são diretores e roteiristas frustrados e os fãs são meros fanáticos. Muitos estúdios e produtores já perceberam que com a internet a participação do público ficou maior e mais próxima, por isso é preciso sim em muitos casos ouvi-los antes de tomar certas decisões, mas jamais ficar preso as opiniões dos fãs, é também preciso provocá-los mostrar uma outra ideia, para que os mesmos sejam surpreendidos e percebam que certas mudanças ousadas podem render bons resultados, o melhor exemplo disso é Game of Thrones com suas inesperadas mortes. Cabe muito aos produtores mediar essa relação entre diretores/roteiristas e fãs, mas essa mediação sempre acaba trazendo como o resultado o famoso “por diferenças criativas”, quando um diretor é simplesmente demitido por não querer seguir a visão que o produtor ou estúdio tem para um filme, mas claro nem sempre os estúdios sabem realmente o que os fãs querem assistir, tentar decifrar o que passa na cabeça do público é algo cada vez mais difícil. Já o fã, por mais que isso seja quase impossível, precisa entender que não é porque você ama algo, todos os outros também vão gostar da mesma maneira, isso só irá prejudicar o próprio fã que precisa ver que fazer críticas para algo que ele goste pode ser algo positivo, o amor cego nunca leva a um bom lugar.

Depois de escrever tudo isso, a pergunta que fica é afinal quem está certo, os críticos, os fãs, os roteiristas? Nenhum e todos, isso depende muito do que está sendo discutido, mas já passou da hora de cada um respeitar a opinião do outro.

Black Mirror 4ª Temporada: A realidade é muito Black Mirror

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“Isso é muito Black Mirror!” Essa definitivamente foi uma das frases mais repetidas no ano passado, até por aquelas pessoas que nunca sequer assistiram um episódio da série, isso se deve muito ao poder de alcance da Netflix que começou a produzir e exibir a série a partir da sua terceira temporada. Depois de um excelente terceiro ano, a segunda série mais comentada (a primeira sempre vai ser Game of Thrones) da internet está de volta para a sua quarta e ainda mais provocadora temporada.

Muitos afirmam que Black Mirror é uma série que apresenta uma versão pessimista sobre o futuro da humanidade, especialmente sobre a maneira que usamos ou ainda vamos usar as novas tecnologias, discordo totalmente, a verdade é que realidade atual é muito Black Mirror e isso na maioria dos casos é muito triste, temos muito mais histórias pesadas envolvendo a evolução tecnológica do que boas histórias, os episódios da série deveriam servir muito mais como um alerta para todos nos, para repensarmos sobre a maneira que usamos as novas tecnologias e não repetirmos os mesmos erros das histórias narradas, já que infelizmente muitas delas estão assustadoramente bem próximas de acontecer.

O quarto ano da série se destaca das demais temporadas por ter em todos os episódios protagonistas femininas e aproveita isso para falar sobre temas que abordam o universo feminino, seja nos relacionamentos, no trabalho, criação do filhos, mas é claro que a série não fica centrada neste universo e novamente debate os outros inúmeros problemas da nossa sociedade. Abaixo farei breves comentários e com alguns pequenos spoilers sobre os seis episódios da quarta temporada, dando ênfase aos temas e ao roteiro de cada um deles.

USS Callister:

A temporada começou com um dos melhores episódios da história da série, voltado ao tema do bullying, seja o físico, o psicológico ou o cyber, e as consequências dele. O criador da série Charlie Brooker e o roteirista William Bridges souberam dosar perfeitamente uma narrativa muito pesada com uma certa dose de humor, revelando um lado mais obscuro do mundo dos games e diria bem próximo de acontecer, além de ao mesmo tempo parodiar e homenagear Star Trek. U.S.S Callister com seus diálogos sarcásticos, debate temas como ser ignorado, o excesso do poder e até uma discussão interessante sobre a liberdade das inteligências artificiais e termina com uma forte mensagem sobre o controle da mulher sobre seu próprio corpo e destino.

Arkangel:

Extremamente atual e necessário Arkangel apresenta um forte debate sobre a maneira de educar seus filhos, a escolha entre protegê-los e esconder a verdade ou deixar que aprendam com seus próprios erros, uma lição de moral para uma geração de mães que criam seus filhos em redomas e não enxergam o perigo do excesso de proteção. A angústia de uma mãe para proteger sua filha a qualquer custo, é exatamente esse excesso de proteção no lugar de uni-las irá acaba criando uma distância entre elas, ao privar sua filha de ver o mundo como ele é de verdade, a mãe acaba criando uma pessoa com uma enorme vontade de viver todas as experiências possíveis, muitas vezes por causa dessa proteção excessiva a menina não enxerga limites e perigos. A direção e visão da atriz Jodie Foster foi essencial neste episódio, Foster conseguiu passar um olhar sensível sobre a relação entre mãe e filha, a delicadeza fica até evidente no simples e delicado efeito utilizado para mostrar o decorrer dos anos e o crescimento da filha, esse episódio não teria alcançado tão bem seu objetivo sem a interpretação de Rosemarie DeWitt como a mãe, um papel complexo e bem dominado pela atriz. Agrada a opção de mostrar que a tecnologia utilizada pela mãe para espionar sua filha no fim é proibida, um detalhe importante sobre como ainda muitas tecnologias vão ser inicialmente geniais e com o tempo podem ser consideradas perigosas.

Crocodile:

Crocodile apresenta, por diferentes razões, duas novas e atraentes tecnologias, o robô carro que entrega pizza já virou sonho de consumo de todos que assistiram esse episódio, já o aparelho capaz de mostrar as lembranças de uma pessoa é a o mesmo tempo instigador e assustador, especialmente pela maneira que é usado na história. Definitivamente o episódio mais pesado dessa temporada e a trama mais complexa, com uma esperta e inesperada interligação de duas histórias, a da arquiteta Mia (Andrea Risenborough) e da agente de seguro (Kiran Sonia Sawar). O público assiste as duas histórias e sente diferentes sentimentos com cada uma delas, com Mia fica perplexo com suas atitudes, o que também faz o público pensar sobre o que faria no lugar dela, ao mesmo tempo que torce pela agente de seguro e fica com medo ao vê-la se aproximando de Mia. A tecnologia neste episódio serve como um meio para mostrar o pior do ser humano, seja a auto proteção, o egoísmo (ambos com Mia) e a busca frenética por um objetivo (com a agente de seguro), no fim ambas pagam caro por seus desejos. O final do episódio é um dos mais pesados de Black Mirror e também um dos mais irônicos, com um assassinato inaceitável e uma testemunha inesperada.

Hang The DJ:

A comparação com San Jupier é inevitável, afinal Hang the DJ (melhor escolha de título da temporada) é o episódio romântico e o único otimista da temporada, nele temos um um pensamento sobre como chegamos ao ponto de usar a tecnologia em nossos relacionamentos amorosos, é ao mesmo tempo uma crítica e também uma visão otimista sobre aplicativos como Tinder. Uma história de amor onde logo na primeira cena já torcemos pelo casal principal (interpretados deliciosamente por Georgina Campbell e Joe Cole), por mais que tudo leve a crer que eles não vão ficar juntos, afinal estamos falando de Black Mirror que não é uma série de finais felizes, mas em uma grata surpresa a romântica reviravolta final deixa no público um sincero sorriso. O universo onde vivem esses dois personagens é uma lembrança de que o amor é muito mais do que um balançar de um dedo aprovando ou desaprovando uma pessoa, muito mais do que uma transa boa, é algo mais complexo e impossível de ser quantificado por um aplicativo, uma troca de olhar diz muito mais do que qualquer outro ato.

Metalhead:

A premissa de humanos sobrevivendo a um futuro apocalíptico e sendo caçados pelas máquinas já foi usada um milhão de vezes e de formas bem mais criativas, toda a ideia deste episódio está cheia de clichês que desonram o legado dessa histórica série. O robô cachorro assassino jamais parece ser uma real ameaça, é até estranhamente fofo, em alguns momentos chegar a ser cômico ver as pessoas tendo tanto trabalho para destruí-lo, o melhor dele é a a bomba que coloca um radar em uma pessoa, tornando-a um objeto de caça, Bella é a personagem mais fraca das protagonistas dessa temporada, a típica sobrevivente que luta pela sua vida, mas sem carisma algum. Decepcionante a preguiçosa direção de David Slade (30 Dias de Noite) que tem experiência no gênero terror, mas aqui não faz esforço algum, a escolha do preto e branco remete aos filmes de terror antigos e para dar um pouco mais de estilo apresenta um efeito de câmera lenta nas cenas de perseguição, mas a falta de emoção das mesmas diminui todo o impacto. Um episódio que termina de forma ainda mais decepcionante com seu final excessivamente baseado em Cidadão Kane.

Black Museum:

A temporada termina de forma esplêndida com Black Museum, um episódio que foge da fórmula padrão da série ao apresentar uma sequência de histórias curtas de terror que tem como temas de fundo o uso da tecnologia na medicina e um fortíssimo debate sobre os direitos dos pacientes que são objetos de experiências. É perturbador ver a história do médico que começa a ter prazer ao sentir as dores dos seus pacientes, tanto por quebrar a relação entre médico e paciente que estamos acostumados, como pelas fortes cenas. O segundo conto tem como tema a maneira como lidamos com a perda de pessoas queridas e o que faríamos para evitar isso, aqui com um tom mais leve por mostrar isso através de um casal. A ideia de colocar outra pessoa dentro de sua própria mente é muito contestadora e discutível o quanto isso poderia dar certo, o que fica evidente tanto com a história do casal como na revelação final. O terceiro traz de volta o assunto da inteligência artificial e qual é o seu limite, a história do prisioneiro transformado em um escravo virtual, sim ele tinha que ser negro para causar mais impacto, consegue causar mais tensão e dor no estômago do que a do médico. Para fechar com chave de ouro uma inesperada e realmente surpreendente reviravolta onde todas as histórias narradas se interligam e temos revelações daquele tipo de cair o queixo.

Dunkirk: Múltiplas tramas, Christopher Nolan e Filmes de Guerra

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Christopher Nolan é daquele tipo de diretor que divide opiniões, muitos amam seu trabalho e muitos outros o odeiam e não cansam de criticá-lo, na minha opinião a carreira dele é até agora estável e seu trabalho é muitas vezes subestimado. Enxergo um diretor com uma visão especial na parte técnica, mas com certo desequilíbrio na parte narrativa, especialmente quando assina o roteiro sozinho sem ajuda do seu irmão e parceiro Jonathan Nolan. Muitas vezes Nolan peca pelos excessos, por exemplo seus últimos filmes, A Origem e Interstellar, geraram enormes discussões seja entre o público ou entre os críticos, duas obras extremamente complexas em suas narrativas; A Origem é um ótimo filme porque Nolan soube desenvolver a sua ideia e fez a sábia escolha de apresentar um final aberto, já Interstellar tem uma boa premissa, mas aqui Nolan exagerou na complexidade da trama e a deixou excessivamente confusa, muitas vezes o diretor faz um esforço excessivo para ser diferente dos seus outros colegas e isso acaba o afastando de boa parte do público.

Seu mais recente trabalho, e um dos favoritos ao Oscar, o filme de guerra Dunkirk reflete bem essa instabilidade e também suas qualidades. Nolan novamente assina direção e o roteiro, desta vez baseado em fatos reais, criou uma história que tenta ser diferente do padrão do gênero ao narrar três histórias ambientadas no mesmo local, mas em linhas temporais diferentes. Nolan apresenta essas histórias em três tipos diferentes de combate de uma guerra; na terra durante o período de uma semana acompanhamos a história de um grupo de soldados tentando salvar suas vidas, a segunda é ambientada no mar durante um dia dentro de um barco que tenta resgatar soldados e por último no ar acompanhamos um piloto em uma difícil missão. Apesar de colocar na tela antes do início de cada narrativa o local e a sua duração é fácil se perder na história durante o seu decorrer, o corte de Nolan feito para dar muita ação e trazer sentimentos de medo, agonia e outros, acaba mais confundido o público e prejudica o total entendimento da trama. Outro fator que prejudica e muito a sua proposta inicial, é que na prática não sentimos esse passar do tempo nas histórias, a única em que o tempo parece correr no período proposto é na trama do piloto.

A história do piloto interpretado por Tom Hardy é a que mais agrada, nela Nolan consegue passar para a telona a questão do tempo como o maior inimigo ao utilizar como trilha o som de um relógio andando. A história do piloto é também a mais emocionante e bonita, com lindas cenas do avião sobrevoando o mar em pleno combate, tendo também um ator de alto nível como Hardy que através de seu tenso olhar passa todo o medo e coragem que o seu personagem está vivendo naquele instante. As outras duas narrativas deixam muito a desejar, a trama do barco indo ao socorro dos soldados é cansativa, sem emoção, cheia de diálogos melosos e um patriotismo exagerado; a do grupo de soldados fugindo pela terra e alguns momentos pelo mar inicialmente tem uma certa ação, mas logo se torna repetitiva.

No último ato Nolan acaba costurando as diferentes histórias e as interligando de uma maneira que ajuda a dar um total entendimento do que aconteceu até aquele momento, mas quando isso acontece já é tarde demais e boa parte do público ficou confuso com a história, o que ficou visível ao ler os inúmeros comentários na internet de pessoas que só foram entender a história somente quando todas as tramas foram interligadas. Um roteiro não precisa mesmo seguir a estrutura básica de começo, meio e fim, um escritor pode misturá-las, cortá-las ou fazer o que quiser, desde que o autor entenda que não está escrevendo para si mesmo, mas sim para o seu público e ele necessariamente precisa entender a história, e básica lição Nolan parece ainda não ter entendido, talvez por uma excessiva confiança. Curiosamente se Interstellar e A Origem exageraram nos termos científicos e em muitos diálogos, Dunkirk em seus pouquíssimo diálogos exagera nas frases clichês dos filmes de guerra, com os velhos temas de honra, superação e patriotismo, aqui temos um péssimo exemplo de diálogos, era preferível cortar ainda mais falas.

A maior qualidade de Christopher Nolan é sua visão como diretor na parte técnica, realmente o diretor tem um olhar especial, capaz de criar belíssimas cenas até mesmo em um cenário triste como de uma guerra. Com sua predileção pelo uso das câmeras IMAX o diretor dá grandeza e detalhamento para cada cena, muitas vezes corta diálogos e prefere closes que retratam muito mais as emoções dos personagens, algo que faz muito bem nas cenas finais. Outra qualidade é sua opção de utilizar muitos efeitos práticos e cenários reais, com pouco uso do CGI, o destaque fica para a ousada opção de usar aviões reais e da época de onde a história se passa para recriar manobras e dar o máximo de realismo.

Tenho esperança que com o tempo Christopher Nolan vai amadurecer ainda mais como diretor, pelo menos já revela ser um diretor eclético, não preso a gêneros, mas sim em contar boas histórias. Em Dunkirk até tentou fazer algo diferente dos outros filmes de guerra, mas entregou mais do mesmo, o que não é um problema já que o longa deve satisfazer os fãs do gênero, e claro a Academia que adora filmes sobre o tema e isso deve lhe render algumas indicações ao Oscar.

Os 10 melhores filmes e séries de 2017!

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Chegou aquele dia de postar a lista com os 10 melhores filmes e séries que assisti neste ano de 2017! Confira:
Top 10 Filmes:
1. A Chegada: Melhor filme de ficção científica dos últimos anos e um dos melhores da história, exemplo de direção e roteiro.
2. La La Land: O jovem diretor Damien Chazelle mostrou toda sua paixão pelos musicais e jazz neste lindo e atípico romance.
3. Moonlight: Um marco na história do cinema, aborda de forma tão delicada e necessária a questão da homossexualidade e dos negros no cinema.
4. Fragmentado: Depois de anos de espera finalmente M. Night Shyamalan voltou a mostrar seu talento para criar um excelent suspense e para contar boas histórias, destaque para a jovem e mais que talentosa Anya Taylor-Joy. Ansioso pela sequência!
5. Star Wars: O Último Jedi: Em breve falarei mais sobre essa obra que atualiza, homenageia, e evoluí da melhor forma possível a clássica franquia.
6. It: Confira aqui o texto sobre essa obra-prima do gênero.
7. Planeta dos Macacos: A Guerra: Um filme que termina da melhor forma possível essa incrível trilogia que conseguiu abordar tantos temas e revolucionou o uso do CGI.
8. Logan: O melhor filme de super-herói e um exemplo que deveria ser seguido!
9. Cercas: Uma aula para aqueles que amam roteiro, um exemplo perfeito de com criar diálogos e contar uma história centrada no desenvolvimento de seus personagens.
10. Guardiões da Galáxia 2: Mais divertido, mais engraçado e ainda mais espetacular do que o primeiro filme!
Top 10 Séries:
1. Mindhunter: Outra aula de desenvolvimento de personagens e de perceber que a ação pode acontecer nos diálogos de uma história.
2. Dark: Comentários sobre Dark aqui
3. This Is Us: Meus comentários sobre a série estão aqui.
4. Crazy Ex-Girlfriend: A série mais injustiçada dos últimos anos, uma comédia deliciosa e que dá uma nova abordagem sobre musicais, além de abordar o tema das pessoas com problemas psicológicos.
5. The Good Place: Melhor comédia da atualidade, simples assim.
6. The Handsmaid Tale: Magnífica! Assistam, esse é o melhor comentário que posso fazer.
7. House of Cards: Deixando as polêmicas de lado, House of Cards apresentou mais uma temporada segura..
8. Shameless: Outra série que deveria ter mais reconhecimento, o melhor elenco de série da atualidade.
9. The Flash: Melhor série de super-herói, apesar da terceira temporada ter exagerado no tom sombrio, ainda assim foi divertida e mostrou o crescimento de seus personagens.
10. Game of Thrones: A penúltima temporada de GOT foi a melhor da série, o duro vai ser esperar até 2019 para acompanharmos a última temporada.

Speechless e Extraordinário: A Retratação dos Deficientes Físicos

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Você já se identificou totalmente com algum ator/atriz ou personagem, seja de série ou de um filme? Não estou falando da personalidade, mas sim fisicamente e pensou o quanto vocês têm em comum? A maioria irá responder que sim, eu faço parte de uma minoria que irá responder não, nos meus 32 anos de vida nunca olhei para um personagem e me identifiquei totalmente, o motivo disso é que sou deficiente físico. Para explicar a minha deficiência, a qual se chama mielomeningocele, afetou os meus membros inferiores, por causa dela manco e utilizo aparelhos ortopédicos e uma muleta para me locomover, felizmente dentro das minhas limitações tenho uma vida normal.

Muito se fala atualmente sobre a representatividade dos negros, transgêneros, mulheres e outros no cinema e televisão, mas pouco ou quase nada se fala sobre outro grande grupo, os deficientes físicos que são 10% da população mundial, quase 1 bilhão de pessoas segundo a IMS vivem com alguma deficiência. Quantos atores/atrizes hollywoodianos com qualquer tipo de deficiência você é capaz de citar? A sua falta de uma resposta só confirma tudo que estou dizendo. Este texto não tem como objetivo fazer drama ou até levantar bandeira para uma causa, apenas constatar os fatos.

A ideia de falar sobre esse assunto surgiu depois de ler um texto no qual uma pessoa com a síndrome de Treacher Collins crítica o filme Extraordinário que retrata exatamente a história de um garoto com essa síndrome. A crítica, a qual concordo, é sobre a escolha de Jacob Tremblay para o papel principal, o carismático garoto que encantou o mundo com sua atuação em O Quarto de Jack, para viver o personagem em Extraordinário Tremblay utiliza uma enorme quantidade de maquiagem (foto acima) e próteses. Todo mundo irá assistir o filme e se emocionar com a história de superação e luta contra o bullying do personagem principal, a qual vale ressaltar é baseada em um livro de ficção e não numa história real. Porém todo mundo, mesmo que inconscientemente, sabe que debaixo daquele personagem existe uma criança considerada, pelos padrões, linda e perfeita. Algumas pessoas vão ler este texto e achar que estou exagerando, mas eu como portador de uma deficiência não vejo diferença alguma entre escolher um ator sem problemas físicos e colocá-lo numa cadeira de rodas ou qualquer que seja a deficiência e colocar um ator branco com o rosto pintado de negro ou um homem interpretando o papel de uma mulher e vice e versa.

O sentimento que tenho quando vejo filmes como Extraordinário, A Teoria de Tudo e recentemente o vergonhoso Como eu era antes de você, é horrível, não consigo me emocionar, pelo contrário, fico com raiva e triste ao ver essa representação, por mais que muitos desses atores façam ótimas atuações, nunca serão capazes de fazer retratos fiéis. Não fujo da verdade que existem realmente poucos atores/atrizes no mercado com alguma deficiência, mas o número existente é o bastante para a necessidade atual do mercado, e se existem poucos atores com alguma deficiência é porque muitos deles sabem que não conseguiram empregos por causa do preconceito existente.

MASON COOK, KYLA KENEDY, JOHN ROSS BOWIE, MINNIE DRIVER, MICAH FOWLER, CEDRIC YARBROUGH

Do outro lado da moeda cito a série Speechless, deliciosa sitcom familiar, que conta a história de uma família que tem como um dos seus membros um adolescente com paralisia cerebral, por causa disso ele não fala e anda numa cadeira de rodas. O intérprete do personagem com paralisia se chama Micah Fowler (foto acima), um ator que tem paralisia cerebral, um caso raríssimo não só de um ator com uma deficiência atuando em uma grande produção, como também de um personagem com uma deficiência sendo interpretado por uma pessoa que também possuí a mesma deficiência. O ator Micah Fowler na vida real é cadeirante, mas é capaz de falar, o que só ressalta a sua habilidade como ator, já que a maioria das piadas envolvendo JJ são baseadas em suas reações faciais, e como ele é engraçado!! Speechless é realmente uma série atípica, fala de forma leve e muito clara sobre as dificuldades de uma pessoa com paralisia cerebral ou cadeirante e tudo que isso também traz para toda sua família, o roteiro tem aquela mensagem padrão do gênero sobre superação, mas faz isso de uma forma muito realista e bastante escrachada. A ótima atriz Minnie Driver interpreta a mãe de JJ, uma mulher superprotetora capaz de fazer as maiores loucuras pelo bem do seu filho, reconheço muito da minha própria mãe nela e aqui também o roteiro acerta na retratação de uma mãe de uma pessoa com alguma deficiência, e faz o mesmo também com todos os outros membros da família.

Speechless é engraçada pelo seu sarcástico texto e semanalmente vejo parte da minha realidade nela, não sou cadeirante e não tenho PC, mas conheço inúmeras pessoas com essas deficiências, e muitas das histórias englobam propositadamente situações que fazem parte do dia a dia de uma pessoa com deficiência, desde algo comum como uma escada até a questão de relacionamentos amorosos e etc. Speechless em sua atual e segunda temporada foi ainda mais longe ao colocar outros atores com diferentes deficiências na história, novamente sendo inovadora e alcançando ainda mais pessoas. Speechless é uma série importante para a história da televisão, mas a sua falta de espaço nos meios de comunicação (incluindo pseudos sites especializados) só revela o pouco espaço que pessoas com deficiência recebem em geral.

Extraordinário e Spechless são dois casos extremos, um mostra a acomodação e falta de coragem da indústria de contratar atores com deficiências e que seriam com certeza absoluta capazes de fazer atuações muito mais sinceras e fiéis a realidade, do outro um exemplo a ser seguido e quem sabe uma esperança de um futuro na televisão e também no cinema com mais atores com qualquer tipo de deficiência trabalhando nas principais produções.  O cinema e a televisão sempre possuíram um papel importante na sociedade, ainda mais neste momento que vivemos, e ter pessoas com qualquer deficiência atuando na televisão ou no cinema ajudaria ainda mais a diminuir o preconceito e aumentaria a inclusão social.

 

 

Dark: Ficção Científica, Som e Filosofia

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“A diferença entre passado, presente e futuro não passa de uma ilusão”

Como recomendo demais Dark para todos os leitores do site vou fazer uma analise sem spoilers com objetivo de falar dos temas principais da série, mas sem estragar nenhuma surpresa.

Um grande erro que muitas pessoas fazem, e muito preconceito surge desse errado conceito, é achar que ficção científica é sobre viagens no tempo, alienígenas, tecnologia e afins. A ficção científica utiliza alguns dos temas citados acima para falar sobre o seu assunto principal, o ser humano e as questões eternas que percorrem a nossa alma, sobre nossas origens, sobre de onde viemos e para onde vamos. A série alemã da Netflix, Dark conseguiu reunir, da melhor maneira possível, alguns dos melhores elementos deste gênero e vai além deles para falar filosoficamente sobre diferentes temas, como culpa, amor e a questão principal que percorre toda a trama, é o passado que define o futuro ou é o contrário?

Dark não é uma série fácil de assistir, e esse é o maior elogio que uma produção atual pode receber, já que vivemos uma época em que temos tantas obras enlatadas com fórmulas prontas para entreter e nada mais. A narrativa de Dark é um delicioso e complexo quebra-cabeça no qual você só terá, talvez, entendimento completo se assisti-lá pela segunda vez e já sabendo o fim da história, mesmo assim ainda faltam muitas peças, deixadas propositadamente como aquelas que serão usadas na já aguardada segunda temporada da série. Dark é uma aula de roteiro, Jantje Friese escreveu um texto extremamente complexo, muitas vezes você se acha inteligente por ter descoberto algo rapidamente somente para segundos depois perceber que algo tão claro passou despercebido, um roteiro que te faz pensar sobre a história o tempo todo, alias recomendo e muito assisti-lá com alguém ao seu lado e juntos tentarem montar as peças dessa história.

O criador e diretor de quase todos os episódios da primeira temporada Baran bo Odar tem uma técnica apurada e é acompanhando de uma caprichosa equipe, a fotografia da série é magnífica, constratando bem escuridão e luz, alguns cenários são muito escuros, a floresta onde toda a história se passa é bucólica e do outro lado temos as cores fortes, muito amarelo, da escola, outro importante cenário que brinca com as as emoções dos personagens e reflete que por de trás daqueles muros coloridos existe a escuridão dos professores, pais e alunos. A trilha sonora tem qualidades e defeitos, se por um lado incomoda a incessante inserção de músicas pop que nem sempre combinam com as cenas, do outro temos um exemplo de uso de recursos sonoros que trazem mais emoção e especialmente terror, muitas vezes os sons inseridos ajudam a dar um clima ainda maior de tensão e medo para o que está prestes acontecer.

Você irá cansar de textos comparando, erroneamente, Dark com Stranger Things, apesar de pequenas semelhanças, é injusta essa comparação. A primeira é uma produção voltada totalmente para o público adulto, com narrativa complexa, feita para o público se confundir e pensar, já a outra é uma divertida aventura pop que vive de suas inúmeras referências e inspirações de clássicos do gênero. Em Dark temos um grupo de personagens bastante reais e imperfeitos, temos inicialmente os arquétipos comuns, o vilão, o mocinho, o sábio e assim por diante, mas neste quebra-cabeça nem sempre as peças são o que parecem ser, o mocinho se torna o vilão e vice e versa, no fim da narrativa é difícil realmente decidir quem está certo e errado, além disso quem está por de trás de tudo é outro mistério que pode ser bastante discutido.

Como citado anteriormente, em tempos de produções feitas somente para serem assistidas e esquecidas, é um alento ver uma série como Dark que não quer apenas agradar o público, mas sim fazê-lo pensar, questionar a tudo, desde a história até sua própria vida. Com um forte teor filosófico e de psicologia, Dark questiona se realmente conhecemos as pessoas ao redor e se podemos confiar nelas, vai além ao levar ao extremo o egoismo do ser humano capaz de destruir a vida de outras pessoas para salvar a vida de uma que seja importante somente para ele. Claro a grande questão que percorre toda a trama: “É o passado que define o futuro ou é o contrário?”. Essa discussão é apresentada através de diferentes visões e argumentos, deixando claro que somos o que somos hoje por causa de experiência que vivemos por toda nossa vida e cabe a cada um refletir sobre os momentos definidores de sua vida.

 

It: Sobre trabalhar o medo e adaptações

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Qual é o medo que te atormenta desde que você era criança? Dificilmente teremos respostas iguais em um mesmo grupo de pessoas, mas é muito mais horripilante pensar que existe algo que assusta, muito, todo mundo, a realidade. A razão vital que faz de It um filme diferente é a sua exploração dos medos internos e os externos um feito que o faz já ser um dos melhores da história do gênero do terror.

Com alguma experiência no gênero, o roteirista Gary Dauberman (Annabelle) tinha em mãos a difícil tarefa de conseguir adaptar para a telona as mais de mil páginas da obra-prima de Stephen King, é só olhar a primeira e esquecível adaptação nos anos 90 para ver o quanto errado poderia ter dado. Dauberman conseguiu realizar tamanha proeza por entender que uma boa adaptação, seja de livro ou HQ, não sempre precisa copiar na telona cada página, mas sim escolher e reunir o mais importante da obra e cumprir um objetivo máximo que é entender a sua mensagem e passá-la para o roteiro. Dauberman seguiu, até diria se inspirou da melhor maneira possível, o exemplo de outra clássica adaptação de outro livro do autor, estou falando de Conta Comigo (Stand By Me), influência que fica clara ao decidir ambientar sua história nos anos 80 e não nos anos 50 como no original de It, o que também é uma sagaz artimanha para deixar o gancho para a já aguardada sequência ser ambientada nos dias atuais.  É fato que estamos vivendo uma moda retrô anos 80 que está servindo de inspiração para tudo, incluindo o cinema e a televisão.

Dauberman e o diretor Andrès Muschietti  seguem essa moda, mas no lugar de apenas copiar (ouviu Stranger Thing?), diretor e roteirista se inspiram nela para tirar o espírito desta década e de filmes lançados na mesma. O Clube dos Perdedores, maravilhoso nome, traz a aura do clássico Clube dos Cinco, explorando aqui os medos da fase da pré-adolescência, desde as inúmeras descobertas internas e externas, amizades e o medo de se tornar adulto. No meio de inúmeros sustos temos aqui um roteiro que fará com que os mais velhos e os que estão passando por essa fase se identifiquem, It é muito mais do que um filme de terror, é uma obra que explora uma importante fase da vida.

O palhaço It (um show de Bill Skarsgard) é obviamente assustador visualmente, mas o que ele provoca em suas vítimas é muito mais, em alguns ele aterroriza através de medos comuns, como pinturas assustadoras ou até os próprios palhaços, já em outros utiliza os medos reais, como o bullying e o abuso sexual. It não é um filme pesado por causa das suas cenas de terror, tanto que a falada cena de abertura com a já famosa cena do braço, acaba sendo a mais leve diante das seguintes, aqui temos um retrato extremo de questões sérias como o bullying, o racismo e a pedofilia, tudo mostrado claramente, sem rodeios, com cenas que realmente vão incomodar os mais sensíveis, o longa coloca esses tema em debate de uma maneira que vai fazer o público, querendo ou não, se colocar no lugar das vítimas e pensar sobre suas próprias atitudes.

Tive um professor de cinema, Franthiesco Ballerini, que sempre comenta sobre como poucos diretores são capazes de trabalhar com crianças no cinema, realmente não é uma tarefa fácil, ainda mais numa história onde você precisa que as mesmas não só fiquem assustadas de verdade, como também precisa colocá-las em situações que mesmo nos adultos nos sentiríamos desconfortáveis. O diretor Andrès Muschietti já tinha mostrado essa rara habilidade de trabalhar com crianças em Mama, um filme de terror razoável, e repetiu e melhorou ainda mais nesta parte em It, mas claro teve a inegável sorte de ter em mãos um elenco talentoso e com atores e atrizes que devem ter longas carreiras. Seria injusto escolher um ator somente do grupo para comentar, todos fazem atuações muito melhores do que muitos adultos experientes no ramo e que por muito menos são premiados, cada um transpira emoção e sinceridade em suas atuações. É quase impossível não ficar com estômago na boca ao ver o que Beverly (Sophia Lillis) vive dentro da sua própria casa ou a dor da perda que parece tão real de Bill (Jaeden Lieberher) e também de uma maneira diferente a de Mike (Chosen Jacobs), o pavor de ser vítima de chacota de Ben (Jeremy Ray Taylor) e até o falastrão Richie (o talentoso Finn Wolfhard  Stranger Things) que é o típico garoto que tenta esconder seus medos e inseguranças através de um comportamento chamativo.

It pouco segue os clichês do gênero, sabe que não é preciso exagerar no uso da imagem de seu antagonista, mas sim criar um medo sobre a sua existência e colocá-lo apenas em momentos cruciais. O que faz de It um dos melhores filmes dos últimos ano do gênero e tão importante atualmente é o seu tema principal que é sobre encarar os seus medos, lutar contra aquilo que está errado em sua vida, deixar de ser a vítima e lutar, ao fazer isso aqueles que vivem e se alimentam dos medos dos outros, como o It, serão destruídos.